O sistema Outburst e o design emotivo
O sistema Outburst consiste num espaço online dedicado às crianças, onde estas têm a possibilidade de exteriorizar as suas emoções, relativamente às notícias e aos diversos acontecimentos da actualidade com que são confrontadas. O objectivo é que estas crianças se abram e que desenvolvam o seu espírito crítico, contactando com as opiniões de outras crianças e ao serem estimuladas a exprimir as suas.
De facto, existem duas formas distintas de interagir com o sistema: a criança pode, unicamente, visita-lo, apenas tomando contacto com as opiniões deixadas por outras crianças, sem, contudo, ter uma atitude participativa, ou então pode deixar o seu contributo, tendo voz activa no sistema.
A exploração do site e a familiarização com o sistema têm um papel importante, na medida em que a criança deve-se sentir à vontade e “confortável”, de forma a que não hajam entraves à “livre” expressão da criança.
Num ambiente em que se pretende combater todos os obstáculos que possam prejudicar o estímulo que a criança sinta, e a sua vontade em dizer o que pensa, conclui-se que é importante fazer a distinção entre três formas de expressão: privada, semi-privada e pública. É um facto que as crianças, e não só as crianças, sentem-se mais constrangidas e com maiores dificuldades de se exprimir em público. Deste modo, pensou-se em três diferentes formas de interacção: as crianças podem apenas guardar as suas opiniões no site, sem permitir que mais ninguém tenha acesso a elas, podem permitir apenas que sejam visualizadas pelos seus amigos, ou pode torná-las públicas.
Para que este site fosse construído, teve-se em atenção um estudo sobre as necessidades das crianças e a forma como estas comunicam : “Supporting Children’s Emotional Expression and Exploration in Online Environments”.
Deste modo, concluimos que a forma de interagir com o sistema deve não só ser funcional, como também ter em conta as necessidades emocionais das crianças, revelando preocupações ao nível do design emotivo.
Relativamente ao design, o site mostra ter tido em consideração questões relacionadas, por exemplo, com a familiariedade das referências gráficas utilizadas, bem como, com a transposição de alguns elementos do mundo físico para o mundo virtual, de forma a que as crianças pudessem compreendender com maior facilidade a função desses itens. O universo da banda desenhada (bem familiar aos mais novos), a recorrência a símbolos como caixote do lixo, o envelope, etc, como referência em algumas operações básicas, são disso exemplo.
Em termos visuais, o site pode até estar adequado e adaptar-se de certa forma ao público-alvo, crianças dos 8 aos 12 anos. Contudo, no que diz respeito ao design emotivo, o site não deixa de ser frio e “baço”, quando se trata de reflectir e interpretar as necessidades emocionais dos utilizadores, de compreender o seu estado de espírito, dando diferentes respostas consoante o estado em que as crianças se encontram, adpatando-se a ele.
O sistema deveria ser capaz de interpretar os diversos comportamentos dos utilizadores, através das acções que estes despoletariam, apercebendo-se do seu estado de humor, e dando respostas em consonância com esse mesmo estado, evidenciando também ele um carácter emotivo nas suas respostas, tal como referem os autores do artigo “Touch me, hit me i know how you feel: a design approach to emotionally rich interaction”, que promove uma interacção num nível emotivo.
Sendo o sistema capaz de recolher informação de carácter emocional e conhecendo, assim, as características emocionais do seu utilizador, a interacção entre ambos ultrapassaria o grau de indiferença com que todos utilizadores são tratados, como se fossem todos iguais.
O site Outburst não faz nenhuma distinção entre os diferentes utilizadores, a sua diferente personalidade, estado de humor ou forma de gostar/querer comunicar, tratando-os a todos exactamente da mesma forma e dando-lhes apenas uma possibilidade de interagir com o sistema, através da palavra escrita. Este único caminho, a poder ser seguido como forma de interacção, acaba por ser muito limitador para um site que pretende ser estimulador da livre expressão das crianças.
De acordo com o artigo“Touch me, hit me i know how you feel: a design approach to emotionally rich interaction”, para optimizar um sistema ao nível do design emotivo, o primeiro passo a ser dado é captar a informação emocional. Ora, a única forma de o outburst apreender este tipo de informação é através do input de texto nos balões de banda desenhada, contudo, ele não interpreta este tipo de informação limita-se a reservar um espaço onde os utilizadores podem revela-la.
O segundo passo tem precisamente a ver com a capacidade de resposta do sistema à informação que interpretou, ou seja, a sua capacidade de feedback emocional. Uma vez mais, o site do Outburst não revela, nem demonstra qualquer compreensão ou empatia com a informação recebida. O feedback dado existe unicamente ao nível da acção, isto é, do estado do sistema, e nunca em função de cada utilizador e das suas emoções.
O terceiro passo relaciona-se com a capacidade do sistema de se adaptar aos aspectos emocionais do utilizador no contexto da utilização.
Como forma de potencializar o site relativamente à sua capacidade dar feedback aos diferentes estados emocionais do utilizador, optmizando-o, assim, ao nível do design emotivo, e com base no artigo “Touch me, hit me i know how you feel: a design approach to emotionally rich interaction”, aqui ficam algumas sugestões:
*Apresentar outras formas de interacção com o sistema que não unicamente a palavra escrita, como forma de expressar aquilo que sentem, como por exemplo o desenho, a fotografia, o vídeo, uma canção etc;
*Dar a possibilidade às crianças de escolher o “bonequinho” que as representa, dotando-o assim de características com que se identifique, criando empatia com o sistema e mostrando-lhe através da caracterização do boneco, como ela própria se sente;
* Impulsionar acções expressivas através de affordances outros artefícios,
de modo a estimular acções por parte do utilizador libertadoras das suas emoções;
*Ser capaz de compreender essas acções e de lhes dar o respectivo feedback
Relativamente ao Outburst, o sistema apenas tem capacidade de actuar ao nível de apenas de uma das relações previstas no artigo “Touch me, hit me i know how you feel: a design approach to emotionally rich interaction” – relação “factual proximal information”, que apenas tem capacidade para recolher informação através de inputs directos, não estando apto para apreender e interpretar o estado emocional da criança, tentado transpôr a interacção também para o plano emcional.
